Caminhões-pipa. População sofre com água suja



Antigamente ninguém falava em água, hoje toda água é poluída. Há mais de 30 anos, a gente ia trabalhar na mata, pegava uma cabaça e enchia de água do poço, bebia e não dava nada”, conta o agricultor aposentado Manoel Dias Tavares, cujos 72 anos são marcados pelos ciclos de seca no sertão do Ceará. A atual é a oitava testemunhada pelo morador de Quixadá. “Hoje não se pode mais fazer isso, seja em poço ou em açude mesmo. Agora a água é poluída”.
A fala reflete as políticas emergenciais mal orquestradas, adotadas nos últimos anos para o combate à seca. Os carros-pipa funcionam desde 2012, ação dos governos estadual e federal. Porém, nunca houve nenhum investimento para tratar essa água.
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Atuando em 166 cidades e atendendo 1,3 milhão de pessoas, um total de 1.456 “pipeiros” cortam o Estado no leva e traz da água de 153 reservatórios monitorados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh). Cabe à Cogerh indicar quais os mananciais apropriados para a retirada da água pelos pipeiros, e ao Exército contratá-los e inspecionar os tanques.

Das fases de tratamento pelas quais deveria passar, somente a desinfecção é feita, com a aplicação de pastilhas de cloro diretamente nos tanques. Entretanto, a qualidade é questionada tanto pelos moradores quanto pelos próprios pipeiros.

“De manhã, a gente chega aqui no açude do Patu e é tudo verde, é uma capa de lodo grossa, e é assim em vários reservatórios. São poucos os que estão bons”, afirma o pipeiro Manoel Almir Pinheiro Filho. “Se o Exército diz que é pra gente retirar água daqui, a gente faz. Mas beber dela eu não tenho coragem, já fiquei doente”.

Após um levantamento em parceria com a Associação Contas Abertas, a reportagem identificou que, desde o começo de 2014 até o dia 15 de julho deste ano, foram gastos R$ 269,1 milhões com os carros-pipa. A maior parte desse montante, proveniente dos Ministérios da Integração Nacional, Cidades e Defesa, foi usada para pagamento de “pipeiros”, diárias de pessoal militar, contas de telefone e aluguéis de carro. Não consta nenhuma verba para o tratamento ou monitoramento da qualidade da água.Crianças

Antônio Carlos Firmino da Silva, de 7 anos, mora na comunidade de Morada Nova, em Senador Pompeu; Marilene de Sousa Gonçalves, 10 anos, reside em São João dos Pompeu, em Quixadá. Ambas as localidades ficam na zona rural, e as duas crianças já foram acometidas por doenças como dengue, diarreia ou pneumonia. Em casa, só consomem água da chuva, acumulada pelas cisternas; já na escola, a que chega é do carro-pipa.
“A gente faz o que pode. Aqui em casa a gente coa e ferve a água, mas não adianta nada se, quando eles chegam na escola, a água que tem pra beber não se sabe de onde vem. Todo mundo aqui no município já ficou doente. Dos meus três filhos, a Marilene, de 10 anos, é a que sofre mais. Tem dor de cabeça, dor no estômago, vomita. É todo tempo assim. Ela conta que o suco distribuído na merenda, feito com esta água, tem gosto de azedo”, queixa-se a dona de casa Joana d’Arc Sousa da Silva, 47 anos, moradora de São Miguel dos Pompeu.
Joana tem cinco filhos e é a chefe da família, a qual sustenta com uma renda de R$ 200 provenientes do Bolsa Família. Desse dinheiro, além de pagar R$ 100 em aluguel, ela gasta R$ 30 com a conta de energia e reserva R$ 50 para a compra da lata de água vendida pelos carroceiros da região, que ela acha melhor para o consumo da família. O que resta para passar o mês são R$ 20.
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