Europa. Qual o preço de receber refugiados?


A crise da migração na Europa ilumina o ponto de vista dos chegantes, que querem basicamente sobreviver, fugindo de guerras civis, terrorismo, perseguição etnorreligiosa e da própria miséria. O argumento de sobrevivência é amplamente aceito e segue a lógica humanitária. Mas também há aspectos pragmáticos envolvidos. Quais as consequências econômicas e sociais da entrada de milhares de sírios, afegãos, eritreus e somalis na Europa?

Os dados reforçam a noção da gravidade deste histórico movimento migratório. São cerca de 500 mil refugiados em países da União Europeia (EU) até setembro em 2015. Na travessia do Mar Mediterrâneo, a rota de fuga, já morreram mais de 2,5 mil pessoas afogadas. A tragédia inclui Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos encontrado morto em uma praia da Turquia. Tornou-se mesmo um símbolo dessa crise.

A mais recente atitude sobre o assunto foi anunciada pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que pediu à UE que receba 160 mil refugiados. Propôs também um fundo fiduciário para os refugiados de 1,8 bilhão de euros, com a maior parte do recurso destinado à países de origem dos migrantes.

A Alemanha se dispôs a receber meio milhão de refugiados por ano. É o país europeu com maior número de solicitação de refúgio. Só de sírios, são quase 100 mil até julho deste ano. Depois, vêm Sérvia (49,4 mil), Suécia (64,6 mil), Áustria, Hungria (18,7 mil).

A Europa não é uniforme e cada país tende a tratar as migrações de forma distinta. Pela divisão da Comissão Europeia, a Alemanha deveria receber 31.443 imigrantes, a França 24 mil, a Espanha, 15 mil e a Polônia, 9 mil pessoas. Os dados são do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR).

Conforme Sued Castro Lima, do Observatório das Nacionalidades, ligado à Universidade Estadual do Ceará (Uece), uma das razões pelas quais a Alemanha passou a aceitar esse fluxo com mais boa vontade é porque precisa dessas pessoas. “A população alemã está com um crescimento natural negativo. Projeções dizem que, em 20 anos, o país vai perder 15% da população, passando de cerca de 81 milhões de pessoas para cerca de 70 milhões”, ressalta.

Outra questão apontada por Sued é o indicativa de envelhecimento da população e da parcela produtiva. “Eles têm um sistema de bem-estar social muito forte, a aposentadoria é muito boa. Para manter isso, precisa de um número cada vez maior de capacidade produtiva. Hoje, são menos de dois trabalhadores para manter um aposentado, o que é muito ruim”, revela o especialista.

Na análise de Sued, a lógica alemã vale para a Suécia, Holanda, Dinamarca e países do Reino Unido. Mas deve ser vista com critério para países como a Grécia, Portugal, Espanha e Itália, por exemplo. São países com alto índice de desemprego, ou seja, não estão atendendo nem a população existente.

No primeiro momento, os ingressos são um peso financeiro para o Estado. O pesquisador ressalta, no entanto, que eles devem se inserir e se adaptar rapidamente ao mercado de trabalho. “Alguns anos atrás, a grande massa produtiva na Alemanha eram os turcos. Eles que sustentavam com mão de obra deles a indústria alemã”.

Pressão nos nativos
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Francisco Cassano, a entrada desses imigrantes não tende a agravar a economia instável da Europa. No entanto, pode impactar na moeda. “Pode acarretar um maior volume de gastos por parte dos governos, porém, não significa agravamento das finanças. Em último caso, poderia influenciar uma desvalorização do Euro”.
Outro ponto avaliado por ele é que os custos tendem a aumentar significativamente e a população local assume esse custo, “diminuindo o bem-estar de cada cidadão”. Assim, haverá uma pressão da sociedade para que esses custos sejam diluídos o mais rápido possível.

No caso da Alemanha, o lado ocidental está mais solidário a receber refugiados. Sued lembra que, em Berlim, tiveram que pedir para pararem de entregar mantimentos, donativos para quem estava chegando, porque não havia mais como guardar, tamanha foi a quantidade.

O economista Célio Fernando enfatiza que os grupos xenofóbicos na Alemanha são bem maiores. Para ele, ainda há resquícios da II Guerra Mundial. “É uma construção complicada, geopoliticamente falando. Até que ponto o acolhimento pode ocorrer? A xenofobia é, em parte, encarada como proteção. Como criar uma condição de bônus demográfico?”, questiona.

Outros pontos a serem superados, conforme Célio, é a questão de segurança, já que podem estar infiltrados entre os refugiados pessoas ligadas a grupos terroristas. Além disso, não há uma linha de comunicação tão fácil.
SAIBA MAIS
DESORDEM MUNDIAL
O impasse do conflito entre querer e poder receber, entre querer e como fazer, é sustentáculo dos debates na Europa sobre imigração. Mas isso não é uma questão nova e está intimamente ligada ao conceito de ordem mundial, que remete ao sistema de Vestfália, instaurado após as violentas questões religiosas na Europa durante a Guerra dos 30 anos (1619-48). Um dos mais respeitados analistas do assunto é o alemão judeu que trabalhou para os EUA, Henry Kissinger. De lá para cá, muitos conflitos desafiaram esta ordem.

LIBERDADE?
Doktor K, como é conhecido, tem 92 anos e lançou ano passado o livro Ordem Mundial, que saiu no Brasil pela Editora Objetiva em 2015. Ele argumenta que, para ser sustentável, qualquer sistema de ordem mundial precisa ser considerado justo pelos governos e pelos cidadãos. Para ele, a ordem sem liberdade gera seus próprios anticorpos, mas a liberdade não pode ser garantida nem preservada sem uma ordem que preserve a paz. A questão é se os líderes saberão superar as urgências cotidianas para alcançar esse equilíbrio.
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