Histórias de jovens que conseguem romper a lógica da violência


Rancisco* perdeu o pai, assassinado, aos três meses. Ainda não tinha consciência de si mesmo. A mãe morreu pouco depois, também vítima da violência, quando o bebê acabara de completar seis meses de vida. Morador do bairro Santa Filomena, foi criado por família adotiva que nunca escondeu as origens do menino. Do contato com tios e primos lembra, pontualmente, das sucessivas mortes da família. Aos 13 anos, era um menino comportado. Quieto, amante de futebol e bastante apegado aos irmãos.

Foi quando tudo começou. O irmão mais velho de Francisco, à época com 18 anos, foi assassinado. A dor foi transformada em atos inconsequentes. “Na adolescência, passei por todos os centros socioeducativos existentes”. Ele quase cumpriu a sina dos pais biológicos, ambos comandantes do tráfico na região e mortos em decorrência de disputas territoriais. Mas, da mesma forma como começou, o envolvimento com o crime teve um gatilho para terminar. Francisco encontrou repouso no grupo Meninos de Deus - coletivo de rapazes que se reúne semanalmente para conversar sobre novas possibilidades.

Hoje, aos 25 anos, tem orgulho de “viver do próprio suor”. Faz planos para o futuro ao lado da esposa, com quem é casado há três anos. Pensa em filhos, em trabalhar, em crescer e, principalmente, em ajudar outros meninos. “Infelizmente, eu dei esse desgosto para os meus pais adotivos (envolvimento com o crime)”, lamenta. Mas é um arrependimento carregado de esperança por novos dias e por novos rumos. “Hoje, se marcasse um dia inteiro, não conseguiríamos colocar no papel o tanto de jovens que morreram nessa guerra sangrenta”.

“O motivo todos nós sabemos: tráfico de drogas. O tráfico devasta, a droga devasta. É muita morte em Fortaleza por conflito de drogas. E, naquele tempo, era uma disputa para saber quem tinha mais dinheiro, mais armas. A droga devasta tudo o que fica na frente - pelo poder e pelo consumo. É uma devastação completa, pior do que um tsunami. Já vi gente morrer nos meus pés, já vi gente morrer nas minhas mãos. É muita juventude desperdiçada”, conta Francisco.

Nas veredas de Fortaleza há, também, os jovens afiados na luta pela garantia de direitos. E eles não são poucos. Quando o cenário da infância é a área de risco com o esgoto jorrando na porta de casa, é essencial ser combativo para tentar garantir realidades diferentes para as gerações diferentes. Suyanne, 22 anos, moradora do Grande Bom Jardim, batalha pelos direitos humanos desde os 14. A vizinhança, ela diz, parecia e parece acostumada com a quantidade de mortes.

Mas, para Suyanne, os corpos estirados na rua nunca poderão ser encarados como normalidade. “Quando um jovem é exterminado, aqui, é logo taxado como um usuário de drogas, um traficante. Não tem uma pesquisa ou uma investigação para saber o que o adolescente fazia ou quais as motivações dele para estar naquele lugar”, comenta. Por isso, ela começou um trabalho de apuração das informações de crimes violentos contra as juventudes.

“Escuto comentários nas comunidades sobre não existir mais esperança. Tem muita descrença. Mas eu acredito, eu milito, eu vou para as escolas conversar com os jovens, vou para dentro das comunidades mostrar como a violência vem prejudicando as nossas juventudes. Muitas perguntas ficam sem resposta: o jovem exterminado era realmente envolvido com tráfico? O que faltou para ele? Quais direitos foram negados? São perguntas negligenciadas”, conta. (Isabel Costa)
 
*Para preservar a segurança dos jovens escutados, O POVO não irá publicar as identificações completas

"Diga Lá!"

“Eu morava no Antonio Bezerra e minha mãe comprou uma casa aqui. Viemos. O tráfico de drogas é comum. Na esquina tem gente vendendo. Até me acostumei, mas o medo fica. Temos receio de ficar em casa. Com meu irmão caçula, agora com dez anos, temos todo um cuidado. Para saber com quem ele está conversando. Aconselhamos muito, caso ele entre para esse mundo terrível. Eu não me envolvo com as rivalidades; tento ficar no meu canto. Sempre reclusa. Vemos essa realidade e sabemos que ela está próxima, que acontece ao lado de casa, não é possível ficar saindo muito. É de casa para o colégio e, às vezes, uma ida ao cinema”.
 
ANDRESSA, 17 anos, moradora do Parque Santo Amaro
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